Em 1985, a banda paraense chegava ao segundo álbum com uma nova formação, uma grande gravadora e a responsabilidade de representar uma cena que ainda estava dando seus primeiros passos.
Há 41 anos, o Stress lançava “Flor Atômica”, segundo álbum de uma trajetória que começou em Belém do Pará e ajudou a escrever uma das páginas mais importantes dos primeiros anos do Heavy Metal brasileiro.
O disco chegou em um momento decisivo. Depois das apresentações históricas no Circo Voador, em 1983 e 1984, o Stress passou a chamar atenção nacional. A famosa chamada da Rádio Fluminense, “A Maldita”, apresentava o grupo como vindo diretamente do “Inferno Amazônico” e como “a banda mais pesada do Brasil”.
A repercussão fez crescer os convites e também a certeza de que a banda precisava deixar Belém. No final de 1984, André decidiu permanecer no Rio de Janeiro. No início de 1985, Roosevelt Bala também se mudou para a cidade, deixando seu emprego na Petrobras para continuar a história do Stress.
Os demais integrantes, por questões familiares, não puderam acompanhá-los. Foi então que entraram Alex Magnum, ex-Metal Pesado, e Bosco Gomes.
A mudança também transformou a atuação de Roosevelt. Agora exclusivamente como vocalista e frontman, sem tocar baixo, ele ganhou liberdade para cantar, correr e se movimentar pelo palco. O Stress passou a investir numa performance física e intensa, com muita “correria” de palco, algo que ainda não era comum entre as bandas brasileiras de Heavy Metal.

O CONVITE
O sucesso do Rock in Rio, realizado em janeiro de 1985, ajudou a despertar o interesse das gravadoras pelo crescente público de Metal no Brasil. O Stress recebeu propostas para participar de coletâneas, mas queria um álbum próprio.
A oportunidade surgiu através do produtor João Augusto, que realizou uma audição da banda no Tok Studio, no Rio.
Depois de ouvir algumas músicas, veio a frase que mudaria a trajetória do grupo:
“Vamos fazer! Tem mais músicas? Preciso de dez músicas para um LP.”
O problema era que o Stress ainda não tinha dez músicas prontas. A banda teve então de compor e arranjar boa parte do repertório em tempo recorde.
Nasceram ou foram finalizadas nesse período músicas como “Não Desista”, “Tributo ao Prazer”, “Jennie” e “Esperando o Messias”. Para completar o álbum, entraram também “Sodoma e Gomorra” e “Mate o Réu”, do primeiro disco, além de “Inferno Nuclear”, da demo de 1984.
Entre todas, “Não Desista” merece destaque. Composta praticamente às vésperas da gravação, a faixa buscava recuperar a velocidade e o peso característicos do Stress, já incorporando elementos do então crescente Speed Metal. Roosevelt criou o instrumental e André escreveu a letra.
A música foi tão corrida que Roosevelt chegou a cantar a composição pela primeira vez no próprio estúdio, durante a gravação.
E ficou.
75 HORAS DE ESTÚDIO
“Flor Atômica” foi gravado no estúdio da Polygram, com aproximadamente 75 horas destinadas à gravação e mixagem.
A banda estava diante de uma estrutura muito superior àquela disponível no primeiro álbum, mas também precisou lidar com problemas.
Um deles aconteceu nas guitarras. O Stress tinha à disposição um Marshall JCM 900, mas a caixa utilizada apresentava problemas e não suportava o volume necessário para que o amplificador entregasse toda a distorção desejada.
Por isso, o resultado acabou sendo menos pesado do que a banda pretendia, mas não tirou o brilho do trabalho de guitarras no disco.
Essa é uma das principais diferenças em relação ao primeiro LP: “Flor Atômica” é mais organizado e tecnicamente elaborado, mas não possui exatamente a mesma crueza e brutalidade sonora do debut.
Ainda assim, as guitarras permanecem bem definidas, e a participação de Leonardo Renda nos teclados de “Jennie”, “Flor Atômica” e “Esperando o Messias” acrescentou uma dimensão melódica diferente ao som do grupo.
Nos vocais, Roosevelt enfrentou sessões extremamente exigentes. As músicas eram cantadas em tons altos e exigiam bastante de sua voz. A última faixa gravada foi “Jennie”. Ao terminar, completamente desgastado, o vocalista encerrou também as gravações do álbum.
A comemoração veio imediatamente: champanhe e gritos dentro do estúdio marcaram o fim daquele trabalho.
O ERRO DE “FORÇAS DO MAL”
“Flor Atômica” também entrou para a história por um erro de edição bastante peculiar.
Na versão final de “Forças do Mal”, foi utilizada por engano uma gravação instrumental destinada a possíveis apresentações em playback na televisão.
Quando o problema foi descoberto, cerca de 10 mil cópias já haviam sido prensadas.
A banda queria impedir o lançamento, mas acabou obrigada a aceitar a situação diante do risco de o álbum simplesmente não ser lançado.
O erro permaneceu nas cópias originais.
Somente em 2002 Roosevelt registrou os vocais da música, e essa versão apareceu posteriormente como faixa bônus no relançamento europeu de 2013.
O LANÇAMENTO
“Flor Atômica” foi lançado pela Polygram, tornando-se um marco: o Stress passava a integrar o catálogo de uma grande gravadora internacional.
O lançamento oficial aconteceu em junho de 1985, no Circo Voador, no Rio de Janeiro.
No mês seguinte, a banda voltou para Belém e apresentou o álbum para aproximadamente 6 mil pessoas.
A distribuição da Polygram levou o disco às principais cidades brasileiras e fez o nome do Stress chegar a milhares de headbangers.
A imprensa especializada recebeu o álbum de forma bastante positiva, consolidando a banda entre os principais nomes da primeira geração do Metal nacional.
41 ANOS DEPOIS
É impossível analisar “Flor Atômica” apenas pela qualidade técnica.
Mas exigir isso seria ignorar o contexto.
Estamos falando de 1985, quando o Heavy Metal brasileiro ainda estava sendo construído.
O Stress vinha de Belém, havia atravessado o país, conquistado o público carioca, sobrevivido a uma mudança de formação e conseguido um contrato com uma das maiores gravadoras do mundo.
E fez isso sem abandonar sua identidade.
Faixas como “Heavy Metal”, “Não Desista”, “Flor Atômica” e “Mate o Réu” permaneceram na memória dos headbangers e ajudaram a manter vivo o legado daquela geração.
O álbum foi posteriormente relançado em CD pela Metal Soldiers Records, em Portugal, em 2013, e pela Evil Invaders Records no Brasil, em 2018.
Mais do que uma fotografia de 1985, “Flor Atômica” continua sendo um documento de resistência, pioneirismo e paixão pelo Metal.
Porque antes de existir uma verdadeira indústria do Heavy Metal no país, algumas bandas tiveram que abrir caminho praticamente na marra.
O Stress estava entre elas.
E 41 anos depois, “Flor Atômica” continua provando que algumas chamas simplesmente não se apagam.
41 anos de “Flor Atômica”.
44 anos de Heavy Metal no Brasil.
Em memória de Alex Magnum.
Escute aqui o disco:
https://open.spotify.com/intl-pt/album/2c2dT2Tzps7fUADUj4biWw
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